sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Estratégia liberal no esquerdistão (II)

(Faz hoje 4 meses do último post neste blog. Mas ainda cá estamos, nada temam.)

Nesta última semana, muito se tem falado sobre um partido liberal. Umas pessoas contra (ex., outro), outras a favor. Acho que o post mais interessante é mesmo o primeiro que citei, do Rui A. (que expande sobre o mesmo assunto aqui e aqui), porque me parece conter a expressão mais correcta do sentimento mais presente nos grupos liberais portugueses. Tem ainda a vantagem de esse post fazer uso de uma analogia (a política como actividade de mercado, o partido como empresa, o votante como consumidor, etc) como forma de ilustrar o argumento. É esse post (e essa analogia) que vai servir de base para o que vou escrever. Mas permitam-me começar um pouco mais atrás.

No último post deste blog ("Estratégia liberal no esquerdistão") falava de um assunto a jusante deste; ali, procurava definir uma estratégia de comportamento individual (na boa tradição Miseana) que depois poderia ser extrapolada para empreendimentos colectivos. O post terminou de uma forma um pouco atabalhoada ("A nível institucional, não sei responder a essa questão, mas vou pensar sobre o assunto.") porque, de facto, não sabia como responder. A resposta fácil a nível institucional (viz., criar um partido) sempre me causou repulsa e referi-o já várias vezes, neste blog e noutros sítios. No entanto, e tenho de reconhecer, não me ocorrerem, até hoje, outras. Explico.

Fui participante no defunto Movimento Libertário, que desapareceu porque as pessoas que dinamizavam aquele espaço perderam o interesse — eu perdi-o porque me pareceu que os esforços que desenvolvia não estavam a surtir o efeito desejado. Naturalmente, alheei-me do projecto, e eu e os meus camaradas percebemos que não valia a pena continuar a insistir. Declaramos bancarrota, e cada um seguiu com a sua vida. Tenho alguma pena, mas acho que o trabalho que fizemos foi bom e meritório.

Fui participante no ainda vivo Instituto Ludwig von Mises Portugal. Deixei de participar porque deixei de me rever na forma como o Instituto era orientado — i.e., a estratégia que a nova (à altura) direcção tomou não me parecia correcta, e distanciei-me também desse projecto. Aqui, tenho ainda mais pena, pela admiração velada que tenho pelo ILvM americano, e por ter visto aquilo que foi possível fazer no Brasil através dos esforços do ILvM-Brasil. A versão portuguesa é até agora um falhanço. Se calhar, não dei o meu melhor para que as coisas fossem diferentes, mas isso é imaterial.

Haverá ainda outras concretizações institucionais, umas bem sucedidas (acima de tudo, o Insurgente e o Blasfémias) e outras nem tanto (Causa Liberal, PLP, outros que não me ocorrem ou não tenho conhecimento). Há razões, muitas, para assim ser. Mas parece-me que há duas que são fundamentais: por um lado, a estratégia (quando existia) era insuficiente ou errada; por outro (ou devia dizer: por causa disso), o desenho institucional não era o mais indicado. O facto de haver "muitos" liberalismos, o facto de supostamente haver "purgas" (apesar de eu nunca ter assistido a isso), de as pessoas discordarem, ou de sermos poucos, parecem-me ser apenas desculpas para ficar parado. E aqui, voltava ao post do Rui A.

A analogia de base parece-me ser correcta; isto é, há de facto muitas similaridades entre uma empresa e um partido, entre o mercado e a democracia, entre um votante e um consumidor. O que me parece é que há um entendimento errado sobre como (na prática) funciona o mercado, e sobre o que é preciso fazer para uma empresa que começa do 0 (ou próximo disso) possa ter viabilidade. O Rui A. diz que para um partido liberal triunfar "carece de causas e objectivos, de bons vendedores e, obviamente, de um presidente do conselho de administração que seja carismático e atraia as preferências dos consumidores." Eu, pessoalmente, discordo.

Do mesmo modo como o mercado mudou — a paisagem do século XX não é a mesma do século XXI, seja no mundo empresarial, seja na política —, também mudaram os caminhos para obter o sucesso. O exemplo mais premente desta mudança de paradigma é o caso da Procter & Gamble; o gigante dos bens de consumo tem desde finais da década passada procurado estar em menos e menos negócios, e a concentrar-se naquilo que faz bem (leia-se, nas marcas mais lucrativas). Em 2014 anunciou que ia vender mais de 100 das suas marcas, e já em 2015 vendeu 43 marcas de produtos de beleza. Não é que os negócios que a P&G vende tenham deixado de ser lucrativos; mas a verdade é que o tempo dos grandes conglomerados que fazem de tudo um pouco ("jack of all trades, master of none") está a chegar ao fim. E isto, na política, quer dizer que a ideia do partido de massas está a acabar. (Note-se que quando estes partidos surgiram, fizeram-no fora das estruturas e instituições políticas existentes, para dar resposta aos novos votantes, que não estavam representados pelos partidos já existentes.)

Uma empresa, para ser bem sucedida no séc. XXI, tem de ter uma estratégia, algo diferente das "causas e objectivos". Isto é, tem de saber qual é o problema ao qual quer dar resposta, e tem de saber o que pode (e não pode) e quer (e não querer) fazer para dar essa resposta. Precisa de um bom vendedor, mas o trabalho do vendedor passou a ser explicar que o seu produto é o que melhor dá resposta ao job to be done, independentemente do seu custo ser elevado ou não — isto contrasta com o vendedor do séc. XX que procura vender o máximo de volume possível, nem que para isso tenha de esconder informação ou oferecer descontos brutais. Os consumidores têm as suas preferências, que não mudam assim tanto, especialmente no caso da política; o trabalho da empresa é desenvolver o melhor produto que dê a melhor resposta possível a esse problema, e não fazer o consumidor mudar as suas preferência para ir de encontro ao seu produto. 

Mais: de nada interessa que o CEO seja um tipo carismático ou um introvertido de primeira água: o que interessa é que o cliente fique satisfeito. Olhem para Espanha: o Podemos atingiu a votação sem um líder carismático (Pablo Iglesias tem tanto de carismático como de liberal). O Cs e Albert Riviera idem. Mesmo no caso português, e com todas as qualidades intelectuais e políticas de Francisco Louçã, o carisma nunca foi uma arma que lhe assistiu. Pelo contrário, sempre soube explicar muito bem o que representava e porque achava que a sua resposta era a correcta para os problemas que assolavam as pessoas. Muita gente acreditou, muita gente discordou. Mas a verdade é que o BE é um caso de sucesso ao nível partidário, mesmo sem um líder carismático, com vendedores que não procuravam agradar a todos, e que não iam ao encontro das pessoas, mas sim com as pessoas a irem de encontro à linha do BE. 

Daí que não consiga perceber a sugestão do Rui A. em dizer que os liberais devem juntar-se ao CDS e ao PSD. Partidos esses que não têm uma mensagem clara (PSD) ou que têm uma mensagem pouco ou nada liberal (CDS). Esses são os liberais que estão a diluir e confundir a mensagem. É como eu querer vender uma distribuição de GNU/Linux e decidir que a melhor maneira é juntar-me à Microsoft para os convencer a fazê-lo. O mais provável é eu acabar a usar Windows.

Daí que discorde de Rui A. Acho que há um mercado considerável por explorar para o liberalismo em Portugal. Acho que um partido pode ser uma boa ferramenta para mudar o status quo. Mas também acho que pode ser uma ferramenta que pode destruir a réstia de esperança que há em mudar o país. Daí que seja uma linha a caminhar com muito cuidado. Continuo sem saber se se deva fazê-lo, mas nos próximos dias vou tentar explicar como, a meu ver, tal empreendimento pode ter sucesso.

2 comentários:

rui a. disse...

Viva Lourenço, como é que você está?

Gostaria apenas de lhe fazer um reparo ao seu post, que é de que, em momento, algum sugeri que os liberais se juntassem ao PSD e ao CDS, mas que é por lá que os vejo e é por lá que presumo que vão continuar a estar. Por isso, provavelmente, é por lá que estão bem. Mas a mim certamente que não me encontrará por essas paragens.

Cumprimentos cordais,

Lourenço Vales disse...

Caro Rui.

Foi problema de interpretação da minha parte, assim sendo - apesar de não ter sugerido que o Rui o fosse fazer. Mesmo assim, mantenho a opinião de que é algo a evitar. Vou tentar reformular.

Aproveito a oportunidade: envie-me um e-mail (tem o meu contacto ali no topo da página). Gostava de lhe falar.

Um abraço.