segunda-feira, outubro 19, 2015

Estratégia liberal no esquerdistão

O panorama político português tem uma forte influência das ideologias de esquerda: entre sociais-democracias, socialismos, e comunismos, pouco espaço sobra para o resto. Isso acaba por se reflectir na comunicação social, que tem uma visão do mundo tendencialmente esquerdista (é irrelevante se essa tendência é ou não premeditada, apenas interessa que ela está presente), e na percepção que existe sobre o que é a opinião pública portuguesa. Afinal de contas, independentemente dos partidos que apoiam, a maior parte dos eleitores portugueses têm mais ou menos as mesmas opiniões sobre qual o caminho a seguir para atingir uma sociedade melhor — e daí se explicar que os partidos em Portugal sejam relativamente parecidos.

Para quem defende algo remotamente liberal, o panorama é desanimador. Isto não é (ou não devia ser) novidade para ninguém. É desafiante tentar participar numa discussão num qualquer espaço público (num café, na faculdade, numa rede social) e assumir frontalmente uma posição liberal. A resposta normal é a pessoa com tal opinião retrair-se, pois ao fim do quarto ou quinto "está calado, seu fascista!" começa a tornar-se cansativo. E isto não faz dos liberais uma espécie de mártir, vítima das maiorias esquerdistas que não gostam de ouvir contraditório. Apenas é o resultado normal de um processo de tentativa de controlo do discurso, onde quem faz parte do status quo fará sempre por abafar aquilo que ponha em risco a sua base intelectual.

O que fazer? Pondo de lado o incitamento à revolta armada e a um movimento secessionista do povo do Norte, onde nos juntaríamos aos nossos irmãos galegos (isso ficará para outra altura), o problema de conseguir fazer com que a ideologia liberal tenha maior peso junto dos que nos são próximos (e só depois sonhar com os que nos são longínquos) é importante. Daí que esta semana me tenha cruzado com duas leituras que me parecem que podem iluminar o que poderá ser uma estratégia liberal no esquerdistão.

A primeira é um artigo no Washington Post, baseado num paper intitulado "The Majority Illusion in Social Networks" que explica como é que é relativamente fácil existir uma desconexão entre a observação local por parte de um indivíduo, e aquilo que é realmente o comportamento/opinião da maioria. Se tivermos em conta que a formação de uma opinião ou o comportamento de uma pessoa é, em parte, baseado em considerações sociais (sendo mais frequente uma pessoa adoptar algo que vê que uma boa parte das suas relações também adoptou), podemos ver o efeito poderoso que um pequeno grupo de pessoas pode ter na sociedade.

A outra é um artigo de Nassim N. Taleb que explica, com recurso a exemplos (e.g., comida kosher, halal, a utilização do inglês em grupos grandes, etc), como é que uma minoria consegue, estando reunidas algumas condições, "impor" comportamentos à maioria. Usando o exemplo da comida kosher, a ideia é que uma pessoa que siga uma dieta kosher apenas pode comer certo tipo de comida, enquanto que uma pessoa que não tenha restrições dietárias poderá consumir qualquer tipo de comida. Daí que a solução de "equilíbrio" tenderá para ser que a produção alimentar adopte as regras kosher, pois assim pode chegar a consumidores kosher e não-kosher. Certamente que esta "regra" (se lhe podemos chamar assim) dependerá do tamanho relativo dos diferentes grupos, do que implica a adopção dos diferentes comportamentos, e por aí afora. Mas a ideia base será sempre a mesma.

O que é que tudo isto implica para a "estratégia" de um liberal (ou grupo de liberais) que gostava de mudar um pouco o panorama? Em primeiro lugar, há que perceber que precisamente pelo facto de o panorama partidário estar completamente "commoditized" — como vimos, os partidos políticos em Portugal têm um eleitorado que, mais coisa menos coisa, tem todo a mesma opinião, e os partidos respondem a isso propondo, mais coisa menos coisa, a mesma coisa —, essa comoditização leva a uma gigante oportunidade para que possa aparecer algo/alguém que diga algo diferente. Afinal de contas, e a julgar pelos números da abstenção, há uma considerável fatia da população que não se revê nessa visão que os partidos actualmente existentes nos oferecem. 

Se a esta ideia de que o espaço político português está maduro o suficiente para ser aproveitado por alguém que diga algo diferente, juntarmos as ideias de que um pequeno grupo de pessoas pode ter um efeito poderoso na percepção da adopção de uma ideia; de que essa percepção pode afectar decisivamente a aceitação efectiva dessa ideia; e de que uma minoria pode, reunidas as condições certas, levar uma maioria a adoptar comportamentos que até então não o teriam; então o que teremos?

Teremos que, e aqui entra a opinião pessoal, o liberalismo pode passar a influenciar o discurso e as decisões políticas em Portugal, dado que cumpra algumas regras base, nomeadamente: 

  1. Que a razão estará do nosso lado, mas que isso implica saber do que se está a falar, implica estudo, e implica o mínimo de coerência e decência — viz., as pessoas não são estúpidas, os esquerdistas não são seres inferiores, toda a gente se engana e que o nosso trabalho é explicar o melhor possível, não insultar.
  2. A noção de que vale a pena entrar em discussões onde se possa dar uma visão liberal sobre o assunto em questão, mas que não vale a pena deixar que a discussão se arraste para o lamaçal do costume; o objectivo não é "converter" esquerdistas, o objectivo é fazer ver que existe uma posição liberal e que terceiros, que leiam aquela discussão, vejam que é uma posição defensável.
  3. A rejeição da associação aos partidos actualmente existentes. A rejeição da participação neste jogo partidário, num ping-pong entre PSD/CDS/PS/etc. Não me vou alongar muito aqui, mas é fácil ver que nenhum eles é liberal ou procura defender o liberalismo. (cf. A direita "liberal" Portuguesa
  4. Fazer o caso positivo pelo liberalismo. Se o socialismo e afins são maus, péssimos, horríveis e tudo mais, é relativamente indiferente. Se aos olhos das pessoas o liberalismo não for uma alternativa credível (e é esse o trabalho que temos de fazer), então de nada adianta que o socialismo seja mau, péssimo, horrível.

Certamente que, posto tudo isto, surgirá a pergunta de como é que se concretiza esta estratégia liberal. A nível individual, é fácil e óbvio: cada liberal deverá evitar retrair-se, e fazer ver que existe uma alternativa legítima ao status quo, e que o liberalismo pode providenciar essa alternativa. Acho que é por aí que deve começar. A nível institucional, não sei responder a essa questão, mas vou pensar sobre o assunto.

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