terça-feira, agosto 19, 2014

O paradigma e a Economia (II)

Há já alguns meses, partilhei aqui uma citação e uma pequena reflexão sobre essa mesma citação — aconselho a que refresquem a memória, pois este post é uma continuação directa daquilo que escrevi na altura. A conclusão a que cheguei, e penso não estar errada, é que o paradigma actual não morrerá tão cedo; e essa resistência deve-se, essencialmente, a um factor: não existe uma alternativa viável para tomar o lugar da maneira de pensar "neoclássica". 

Acredito que também há outras coisas em jogo a favor da manutenção do actual paradigma, mas essas características — p.e., um amigo falava-me da "plasticidade" da economia neoclássica — apenas explicam o porquê da profissão ainda não ter degenerado a 100% para uma competição entre metodologias, mesmo que essa característica sempre tenha estado presente na disciplina (pensar nos economistas "salgados" e de "água doce", para dar um exemplo já pouco relevante no contexto académico, mas ainda relativamente recente).

É uma acusação grave da minha parte ter dito que a metodologia austríaca não está em condições de tomar o vazio científico que o paradigma neoclássico acomete a disciplina económica. Gostaria de clarificar tal posição, porque, contrariamente ao que possa parecer, acho que os ensinamentos da escola austríaca são os únicos que podem tornar a Economia algo melhor; simplesmente, acho que ainda não atingiram o ponto "rebuçado". Mas acho que é possível melhorá-la sem perder a essência.

Uma das razões para isto acontecer tem que ver com a insistência na desvalorização do "dado empírico" por parte de Mises e Rothbard — e acho que é melhor focar-me nestes dois, visto que a posição de quem vem antes, viz. Menger, não ser completamente clara a nível metodológico; e quem vem depois destes dois não altera nada de particularmente importante, apesar de ser feito um trabalho notável na clarificação e justificação adicional do core da metodologia. E o ponto aqui parece-me ter uma nuance que acho importante explicitar desde já: percebo perfeitamente a razão do porquê dessa desvalorização, e concordo a 100% com ela; no entanto acho que criou uma limitação artificial naquilo que a metodologia austríaca pode fazer na criação de conhecimento económico. 

Alargando: o distanciamento completo de uma metodologia positivista era algo fulcral para Mises. Em meados dos anos 30, começamos a ver uma real tentativa de modelização matemática da Economia. O primeiro Nobel da Economia, atribuído em 1969, vai para Tinbergen e Frisch precisamente pelos seus contributos nessa área. E Mises sente necessidade de explicar os erros dessa metodologia, bem como de se distanciar radicalmente. A praxeologia, método aprioristico por excelência, não poderia cair nos mesmos erros; o dualismo metodológico, que separa as ciências naturais das ciências do homem, serve para isso mesmo. E Mises tinha razão. Os erros que ele aponta existem, são reais, e estão presentes mesmo na versão moderna da metodologia neoclássica, porque são consequências lógicas da sua base. E se se achar que aquilo que as críticas que Mises faz não são suficientes, a quantidade de argumentos contra a utilização de metodologias positivistas na Economia só aumentou ao longo dos anos (eu tenho procurado mostrar isso aqui no blog: O conhecimento tem problemas, parte II, parte III, parte IVA Escola Austríaca e a Ciência).

Portanto, eu percebo a argumentação Miseana. No entanto, parece-me haver algo que a Economia pode aprender com as ciências naturais. Não importar de modo acéfalo, fruto do sucesso aparente dos métodos lá aplicados; mas uma replicação mais consciente do domínio de aplicação. Para isso, gostaria de ir buscar o trabalho de Imre Lakatos, que apresenta uma hipótese sobre a forma como a ciência evolui: a existência de um core de premissas que constituirão o que define o "paradigma" (Lakatos chamava-lhe o research program); simultaneamente, existirão premissas que andarão em redor desse core e serão consideradas apenas como hipóteses auxiliares. 

A diferença é significativa: em primeiro lugar, o carácter epistémico das premissas dependerá da sua colocação no core ou não; caso lá estejam, podem ser consideradas como um centro de epistemic trust, uma base segura para construir o que existe em volta, sendo que as premissas auxiliares serão descartáveis conforme a necessidade (resta explicitar "de quê", mas quanto a isso só mais daqui a pouco). Em segundo lugar, por força do que foi dito antes, os cientistas, ao contrapor teoria e realidade, só irão trabalhar sobre essas premissas auxiliares, procurando com elas aumentar o poder explicativo do core (pode também aumentar o poder de previsão, mas essa não deverá ser o objectivo de nenhuma ciência). Pondo as coisas noutros termos, a ciência normal só se desenrola sobre o que está fora do core.

Há uma característica desta teoria de Lakatos que me parece especialmente apelativa: nada é dito sobre qual a melhor metodologia a aplicar para fazer "ciência"; certamente que conhecemos as preferências de Lakatos para os casos as ciências naturais, que passa por um melhoramento do falsificacionismo popperiano, mas não parece que haja incompatibilidade com outros métodos. O húngaro, que trabalhava também no campo da matemática, sabia que o método depende do assunto a tratar.

É por aqui que me parece haver a possibilidade de melhorar a metodologia austríaca e, por conseguinte, a Economia. Já sabemos exactamente o que constitui o core: olhemos para o grosso do Human Action e do MES. O core é a praxeologia aplicada à economia. Mas não precisamos de ficar presos só a isso. Podemos ir mais além, e não precisamos de usar somente o método praxeológico. A minha proposta é precisamente que se abandone, para as hipóteses auxiliares, o método algo restritivo da praxeologia; essas hipóteses não têm que vir, através da dedução, do(s) axioma(s) que estão na base do core austríaco. Ainda assim, convém colocar algumas fronteiras naquilo que estou a propor.

A nível do método para chegar a essas hipóteses auxiliares, acho que o anything goes, o anarquismo metodológico que Feyerabend propõe, é uma excelente opção. Existem insights de uma série de correntes heterodoxas no campo da Economia que, mesmo que não possam ser deduzidas do axioma da acção humana, seriam interessantes preservar porque parece que explicam algo. Se se chegaram a essas conclusões através de um método experimental, econométricos ou de pura dedução. Interessa que o poder explicativo do corpo teórico da disciplina aumente. Se, aparentemente, ajuda pensar no funcionamento das empresas como um conjunto de diferentes rotinas, então não devemos descartar essa heurística.

Contudo, há que perceber a relação entre o que está dentro e fora do core. Apesar de, em termos metodológicos, anything goes, nem tudo pode ser aceite. A premissa "os seres humanos não agem" não pode ser aceite, por uma razão relativamente simples: entra em contradição com aquilo que foi estipulado no core. Este critério de não-contradição deve ser o rege em última instância o que pode ou não constituir o corpo de hipóteses auxiliares. Esta espécie de coerentismo entre o grupo de hipóteses auxiliares e o core apresenta a vantagem de garantir que 1) não temos um corpo inconsistente e 2) aumenta a probabilidade (não sendo possível quantificar, contudo) dessas premissas estarem em concordância com a realidade. Ainda assim, as premissas do core não poderão ser modificadas por eventuais novas premissas auxiliares — é lá que reside a fundação, e nesse aspecto estamos a ir de encontro ao proposto por Mises.

Esta proposta não me parece constituir nenhuma revolução no pensamento austríaco, mas parece-me ser importante apontar que a constante ostracização de todo o conhecimento que não seja formado de acordo com o método praxeológico estará a prejudicar a aceitação da escola austríaca. Se existir um método de integrar o que já existe ao nível da ciência económica, mesmo que com a nuance de o fazer dando um lugar de inferior grau de certeza ao que existe fora do core — e não poderia ser de outro modo, a meu ver —, penso que a Escola Austríaca só teria a ganhar.

2 comentários:

CN disse...

O problema será talvez compreender o que cabe dentro da economia, a que perguntas é suposto responder?

Não vejo que a investigação aplicada tenha qie constituir um problema para austríacos. Análise estatística, construção de modelos, etc.

Problema é essa investigação aplicada por-se de bicos de pé e tentar assumir-se como uma epistemologia que não pode de todo assumir.

Mises tem dificuldade em ser aceite porque quase toda a classe de economistas parece incapaz de compreender as coisas mais básicas do Human Action. Sâo mundos à parte que não comunicam. Aquilo que um Miseseano aprecia no HA um não-austríaco parece nem sequer compreender o que aquilo é.

Lourenço Vales disse...

«Problema é essa investigação aplicada por-se de bicos de pé e tentar assumir-se como uma epistemologia que não pode de todo assumir.»

Concordo a 100%. Daí o meu esforço para separar bem as duas coisas: o que é deduzido aprioristicamente; e o resto. Para todos os efeitos, são dois tipos de conhecimento diferentes, formados de forma diferente e com graus de certeza diferentes.

«Mises tem dificuldade em ser aceite porque quase toda a classe de economistas parece incapaz de compreender as coisas mais básicas do Human Action. Sâo mundos à parte que não comunicam.»

É um bocado aquilo de que o Kuhn falava: paradigmas diferentes têm linguagens diferentes. Não é de estranhar, não é a primeira vez que acontece, e não será isso que estará a atrasar a EA. É normal que pessoas imbuidas no paradigma neoclássico tenham dificuldades em aceitar a metedologia austríaca. Parece-me é que o trabalho de quem tenta mudar isso é tornar que essa transição seja o mais natural possível. É um pouco com esse objectivo que escrevi este post.