domingo, março 03, 2013

O conhecimento tem problemas (IV): o método e a demarcação

A questão do método é importante: num mundo onde a "Ciência" atinge uma dimensão muito próxima ao "culto da carga", onde a maior parte das pessoas não percebe muito bem o que se está a passar mas que acreditam em (quase) tudo o que vem com a etiqueta de "científico", convém garantir que quem trata da "carga" o faça de uma maneira não só íntegra mas que também seja consistente dentro da disciplina a tratar — i.e., se dentro de um determinado campo temos pessoas a tratar o mesmo assunto de maneiras diametralmente opostas, ainda estamos a falar de ciência?

O primeiro problema que se oferece é que um método, por si só, não é um critério de demarcação. A maneira de "validar" (aqui as aspas não são em vão) conhecimento terá que ser, simultaneamente, interna e externa: i.e., ao nível interno, é um bom indicador de validade do conhecimento se houver consistência no método com a restante investigação feita; mas, por si só, não chega. Ao nível externo terá que existir um outro critério que permita separar o que é ciência do que não é, devido à insuficiência do "critério interno".

Porque é que é importante a existência dessa consistência metodológica interna? Foi, no fundo, essa a pergunta que ficou em aberto no primeiro parágrafo. A resposta parece-me que é dada pela teoria sobre a história/evolução da Ciência que Thomas Kuhn avança: o processo científico normal é dado pela observância dos princípios basilares de uma dada área, e com essa framework tenta-se fazer um processo de "acumulação de verdades". Os cientistas, por norma, não estão constantemente a tentar revolucionar o seu campo, estando mais virados para a resolução de problemas (Kuhn chama-lhes "puzzle-solving") do que outra coisa. Só quando a acumulação de anomalias (i.e., diferenças entre os resultados teóricos e a realidade) se torna insustentável — o que não é um conceito fixo — é que os cientistas tentarão sair do seu paradigma. Mas é precisamente por causa deste conservadorismo, da existência de um método consistente, que a ciência é tão útil para resolver problemas.

O segundo ponto, o do critério externo, é um dos pontos de contenção mais fortes dentro da filosofia da ciência. Afinal de contas, como sabemos que estamos perante conhecimento que é válido? Já vimos que não é suficiente que exista um "método científico". A resposta standard é ao falsificacionamismo, onde o ponto importante é a falsiabilidade, a característica de algo que é passível de ser falsificável; portanto, para uma teoria ser considerada conhecimento científico terá de 1) ser passível de ser falsificável e 2) ainda não ter sido falsificada. Este critério de demarcação foi defendido por Popper a partir da década de 30. No entanto, esta visão entra em conflito com o ponto exposto atrás; Popper acaba por ver a ciência como algo em constante revolução, onde as teorias são postas de parte à primeira contradição (falsificação), ignorando duas situações distintas: primeiro, que a maior parte dos cientistas apenas muda de paradigma de modo relutante, ignorando ou tentando justificar as primeiras anomalias que surgem dentro desse mesmo paradigma (assim nos diz Kuhn); por outro lado, Alan Sokal diz-nos que os cientistas escolhem as teorias na medida em que lhes são útil e a realidade as confirma (e Popper sempre foi muito crítico da ideia de ter um critério de "confirmação").

Imre Lakatos tenta suprir a aparente contradição (que para Lakatos é apenas desconexão) entre os argumentos de Popper e Kuhn fazendo a diferenciação entre as teorias que fazem parte do "núcleo duro" e as hipóteses auxiliares que tentarão limar esse núcleo de eventuais contradições. Segundo Lakatos, o facto de a natureza falsificar uma teoria não quer dizer que a teoria esteja errada, poderá apenas querer dizer que faz parte de um conjunto de teorias que é inconsistente (nas palavras do próprio: «It is not that we propose a theory and Nature may shout NO; rather, we propose a maze of theories, and nature may shout INCONSISTENT»). (cf. este post do ON) Mas então que método é que Lakatos propõe? A substituição das hipóteses auxiliares de acordo o critério de falsificação através da investigação empírica, tentando com isso proteger o núcleo; e quando o poder explicativo das teorias aumenta, então o progresso acontecesse; se, contudo, se acrescentar hipóteses ad-hoc apenas tentar salvar a teoria, nada feito. Isto, não sendo um método per se — afinal de contas, nada nos é dito quando e em que circunstâncias exactas se deve abandonar o núcleo duro — mas não deixa de ser um método para progredir no conhecimento.

Finalmente, há uma última perspectiva que é interessante abordar. Paul Feyerabend avança a ideia de que não há qualquer regra metodológica que oriente aquilo a que se chama "ciência"; no fundo, a ciência não tem nenhum método universal e pensar que sim é na verdade prejudicial para o seu desenvolvimento. Daí que Feyerabend seja adepto de um anarquismo epistemológico ou, citando, «anything goes». O propósito de mostrar que não existem estas regras metodológicas universais prende-se com a ideia de que é impossível encontrar um critério de demarcação que seja igualmente universal. No fundo, não é exequível separar "ciência" de "pseudociência".

O que é que se tira do meio disto tudo? Bem, isso fica para um próximo post.


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