quinta-feira, março 21, 2013

A Escola Austríaca e a Ciência

Na verdade, não deveria estar a escrever este texto: é estar a pôr a carroça à frente dos bois. O que tenho tentado fazer nestes últimos 2 meses aqui pelo Ordem Natural é uma introdução a alguns problemas e conceitos interessantes da parte da epistemologia para conseguir depois, com uma toolbox mais completa, explicar porque é que a economia neoclássica é uma treta e porque é que a Escola Austríaca, podendo até ter problemas, é uma abordagem mais sã e correcta ao problema que a Economia se propõe a (ajudar a) resolver. Sim, eu tinha um plano (tão socialista da minha parte), e ainda não consegui reunir as condições para conseguir explicar de forma consistente aquilo que queria. Mas apareceu este post n'O Insurgente e não consigo resistir a responder.

O primeiro problema com a narrativa exposta no post é o facto de o critério de demarcação defendido pelo autor ser o do bom velho Popper — o falsificasionismo. Mas não deixa de ter piada que se fossemos a aplicar esse mesmo critério à teoria neoclássica, ela falharia redondamente. Aliás, as primeiras pessoas a fugir com a cara "aos tapas da falseabilidade" serão mesmo os neoclássicos: estudos empíricos comprovam que as assumpções estão erradas (adoro poder usar esta frase). Por exemplo, basta irmos ler Tversky (1969), May (1954), McCrimmon e Larson (1979), Slovic e Lichtenstein (1983), Fishburn (1984), e Steedman e Krause (1986), etc, e perceber que só a ideia da transitividade e a impossibilidade da reversão de preferências é algo que está completamente falsificado; e, no entanto, continua a fazer parte do core da economia neoclássica.

E pode-se dizer que o autor não estava a fazer uma apologia da economia neoclássica, algo que é possível. No entanto, o que o autor não percebe é que não é o critério da falsificabilidade que nos diz o que é ou não ciência. Não é esse o critério que os cientistas utilizam — pelo contrário, as observações que falsificam uma teoria são, normalmente, "resolvidas" com novas assumpções adhoc que permitam que aquela teoria continue a ser utilizada.  O "método científico", contrariamente ao que se faz querer parecer, não é o falsificacionismo (em versão naive  ou mais sofisticada); para perceber porquê, este post pode ser um bom começo. Mas basta olhar para aquilo que a Economia é: mesmo imitando de modo mais ou menos consistente o "método científico" (hipótese, teste, falsificação, etc), não é uma ciência — as falsificações acumulam-se há 40 anos, e ainda está tudo no mesmo "paradigma".

Convém ainda reproduzir um ponto especialmente importante, que revela muita da ignorância e impossibilidade epistemológica de existir uma Economia a imitar as ciências naturais:

«Predizer é orientar para onde se espera que o mundo caminhe *dado o que* sabemos hoje e levando em consideração tanto riscos (estimáveis) quanto incertezas (a respeito das quais quase nada podemos dizer). Se as previsões são utilizadas para fazer policy, o problema não é com as previsões: é com os policymakers e, o que é ainda mais grave, com os que elegem esses policymakers para seus cargos.»

Isto é muito bonito. Mas parte de um pressuposto muito interessante: a regularidade da realidade. E, mais ainda: que existe uma distribuição de probabilidades que pode explicar a realidade; e que essa distribuição seja, por norma, a distribuição normal. E, aqui sim, o problema está nas previsões.  

Vamos voltar ao básico da estatística: para poder utilizar ferramentas de indução estatística que nos permitem (não) rejeitar uma qualquer hipótese (testes de t, F, chi quadrado, etcetcetc), damos como adquiridos alguns pontos: random sampling, sample variation, etc. Mas há uma em especial, que é o facto de as variáveis terem que ser i.i.d.. Curiosamente, é sempre um ponto que é dado como adquirido mas nunca consegue bem ser provado — e, quando é feito, é sempre com assumpções adhoc. A questão aqui é muito simples: a realidade, aquilo que o autor tanto quer descrever, não se descreve com uma distribuição normal. Talvez se consiga descrever as alturas da população (e, mesmo isso, esbarra com o facto de não se poder ter uma altura negativa nem tampouco haver pessoas com menos de 40cm, por hipótese), ou outra coisa qualquer menos interessante. Mas tente-se lá fazer modelização para descrever o comportamento do mercado de trabalho com recurso a uma distribuição normal; ou, mais engraçado ainda: tente-se prever os mercados financeiros com recurso a intrincadas equações que têm no seu âmago a distribuição normal (hint, hint). Se calhar, a melhor recomendação que posso fazer é ler os escritos de uma senhora chamada Deirdre McCloskey, em especial o seu  Standard Error of Regressions.

E, após perceber o início do porquê desta ideia do empirismo e do facto histórico não servir para  muito na Economia, é ainda mais interessante perceber o porquê da abordagem austríaca ser consideravelmente melhor do que a abordagem "científica".

Uma das críticas que está patente no post original é o facto de, devido ao seu método não-empírico, a Escola Austríaca não conseguir dizer nada de muito interessante sobre a realidade: se ninguém disputa a consistência lógica, disputa-se a utilidade. Mas aqui é interessante perceber ao certo o que é que Mises conseguiu ir buscar e melhorar a Kant. E muito do que vai ser aqui dito já foi explicado por Hoppe no seu Economic Science and the Austrian Method, mas vou tentar parafrasear para não obrigar a leitura completa (no entanto, tal descrição está sujeita a erros; aconselha-se a leitura completa do ensaio para perceber exactamente o que está aqui [d]escrito).

Kant diz-nos que existem 4 "categorias" que podem classificar as proposições: a priori e a posteriori, bem como sintéticas e analíticas. As proposições que a EA faz são proposições sintéticas a priori: proposições cuja veracidade pode ser aferida antes da experiência (a priori) e cujas leis da lógica proposicional não são suficientes para aferir a sua veracidade (sintéticas). A parte engraçada é que Kant diz que estas afirmações existem, pois são derivadas de axiomas auto-evidentes, axiomas cuja veracidade não pode ser negada sem incorrer em auto-contradição. Mas o problema aqui sempre foi um suposto idealismo nesta teoria: como é que se explica que estas categorias da mente possam encaixar na realidade? E é aqui que Mises entra: é a acção que faz a ligação entre a mente e a realidade; as categorias da mente são, em última instância, categorias da acção; e a causalidade também o é: agir é precisamente influenciar algo num dado ponto do tempo para produzir um resultado posterior — se a causalidade não existisse, não existiria acção. O axioma que procuramos é o axioma da acção. Daqui se conclui que todas as conclusões da EA, assumindo a sua consistência lógica interna, são não só válidas como dizem algo sobre a realidade. E isto é extremamente útil.

Poderia escrever ainda sobre mais umas coisas com as quais discordo do autor (a questão do método científico, se o propósito da ciência deve ou não ser "produzir previsões", se ser ciência interessa ou não para alguma coisa, etc). Mas estes 3 pontos (demarcação, distribuições de probabilidade, e axioma da acção) parecem-me ser os mais importantes para perceber o que se passa de errado naquele texto. Num futuro não muito longínquo, voltarei à carga para explicar com mais pormenores coisas que me parecem importantes sobre este mesmo tema.

4 comentários:

rui a. disse...

Parabéns pelo seu texto, caro Lourenço Vales.

Coloco-lhe, porém, uma dúvida: em que é que testar a veracidade de uma conclusão decorrente de um axioma auto-evidente, no fim de contas, o métodp de Popper, invalida o método de verificação da sua validade? Por outras palavras, aplicado às Ciências Humanas e à Economia, o empirismo de Popper não será apenas utilizado na tentativa de refutação de conclusões científicas não obtidas por métodos empíricos e não para a formulação dessas mesmas conclusões? Se for assim, o que tem a perder a Economia, mesmo nos seus considerados "axiomas auto-evidentes", com a aplicação do método de Popper?

Concretamente, porque não podemos admitir que as convicções (deixemos de lado a expressão "leis") que, por exemplo, sustentam a afirmação da superioridade da economia de mercado sobre a economia planificada, não beneficiem do fracasso histórico destas últimas, que, no fim de contas, foram postas em marcha para tentarem provar a falibilidade do capitalismo?

Cumps.,

L. Vales disse...

Rui A.

Desde já obrigado por ter aguentado o texto todo e por ter gostado ao ponto de me felicitar.

Em relação à pergunta que faz, vou responder com um link e uma explicação. O link: http://lei-natural.blogspot.pt/2012/12/o-conhecimento-tem-problemas-ii-duhem-e.html

Agora, o problema da subdeterminação* invalida então o método da falsificação (pelo menos) na Economia: como não sabemos (porque não podemos saber) se a falsificação resulta do confronto entre hipótese/realidade ou vem de uma outra fonte qualquer (uma qualquer assumpção do modelo, por hipótese), então a falsificação de uma dada hipótese nada nos diz sobre a veracidade da hipótese em si mas sim sobre todo o conjunto (hipótese+tudo o resto).

* do inglês "underdetermination", acho que a tradução está correcta

rui a. disse...

Obrigado pela sua resposta, Lourenço, e pelo link que me indicou.

Parece-me claro que, em Economia e nas Ciências Humanas, na generalidade, não é possível estabelecer, com facilidade, uma relação de causalidade entre dois factos, que nos permita, daí, extrair uma lei de padrão universal. Se o fosse qualquer economista estabeleceria, sem dificuldades, o caminho da prosperidade (mais ou menos o que os keynesianos pretendem fazer), e um historiador experimentado saberia adivinhar o futuro de qualquer comunidade.

Todavia, penso que não é este o sentido do empirismo de Popper, tão pouco o de Hayek, que segue o método popperiano na sua metodologia de análise económica, conforme expõe na primeira parte do LLL.

Ponho-lhe a questão assim: vc. não acha que comparar sistemas económicos e medidas económicas diferenciadas e conflituantes, nos poderá levar a concluir que uns e umas funcionam melhor do que outras, isto é, que uns se baseiam em pressupostos verdadeiros e outras não? E que a oposição de umas a outras, verificando-se umas serem melhores do que outras, não reforça o status científico das sobreviventes?

Por exemplo: se eu comparar uma economia planificada com uma economia de mercado, sendo que a primeira se contrapõe à segunda, não poderei concluir que os pressupostos em que esta se baseia são verdadeiros (ou que, pelo menos, não foram invalidados pelos pressupostos contrários) e aqueles em que se baseia a outra são falsos (ou que, pelo menos, não invalidaram aqueles a que se opunham)? Ou se eu disser que um preço estabelecido pelo mercado transmite melhor informação aos agentes económicos do que um preço fixado pelo governo, e se depois analisar os resultados de um e de outro sobre o consumo e a produção, não poderei retirar consequências sobre a validade de uma hipótese em relação à outra?

Por outras palavras, o teste de falsificabilidade de uma hipótese confrontando-a com outra diferente poderá não servir, em Economia, para estabelecer leis científicas, mas não poderá ser útil para expurgar certas hipóteses e reforçar a plausabilidade de outras?

Cumps.

L. Vales disse...

Caro Rui A.,

Vou tentar explicar, dentro daquilo que sei, o que me parece que falha nesse raciocínio; não encare a minha explicação como condescendente, mas é apenas para ter a certeza que eu não passo uma ideia errada.

Ok, o "método científico", como é entendido hoje e aplicado na Economia/econometria neoclássica (que será uma emulação relativamente próxima daquilo que é feita nas ciências "duras"), faz-se da seguinte maneira: constitui-se uma hipótese nula (ex: "H0: O Capitalismo resulta") e uma hipótese alternativa (ex: "H1: O Capitalismo não resulta"). E, imaginando que é possível 1) construir um modelo de regressão linear para testar esta hipótese e 2) recolher os dados, então estimam-se o(s) regressor(es). Fazendo um teste de significância estatística (individual e/ou conjunta) aos regressores, podemos então tirar uma conclusão: se não houver significância, então rejeitamos a hipótese nula a favor da hipótese alternativa (assim sendo, concluímos que o Capitalismo não resulta). Contudo, se houver significância, a conclusão é que não rejeitamos a hipótese nula; repare-se: não se aceita a hipótese nula, apenas falhamos em rejeitá-la. Isto significa que não podemos concluir que o Capitalismo resulta, mas apenas que não somos capazes de concluir que ele não resulta. E este é o (maior) problema com o falsificacionismo: não nos permite dizer que o Capitalismo resulta; apenas que, tendo em conta os dados disponíveis, se prevê com um dado nível de certeza (em Economia, normalmente são 95%, ~1.96 sigma; o que é ridículo quando comparado os 5 sigma que usa a Física) que não se rejeita o Capitalismo. O paper (que indiquei no post) da McCloskey explica isto em mais detalhe.

Mas, ainda assim, o Rui A. poderá dizer que isto não é suficiente para dizer que este método não é útil: afinal de contas, conforme vamos apertando a "malha" (i.e., vamos escolhendo níveis de significância cada vez maiores) então vamos tendo maiores e maiores certezas. Mas há aqui um outro problema, o da utilização da distribuição normal para a realização dos testes empíricos. Isto é um tema para um post inteiro, mas a ideia base é esta: a indução com base na distribuição normal não funciona por dois motivos simples. Um deles, o simples teste contra a realidade: os acontecimentos quasi-impossíveis acontecem na realidade (p.e., o dia 28/10/1929 não devia ter existido, assumindo que o mercado se comporta de acordo com uma distribuição normal) e, na verdade, têm um peso bastante maior na distribuição de probabilidades do que a distribuição normal faria antever; o outro é o de que mesmo que os acontecimentos impossíveis nunca tivessem acontecido, não há nenhuma garantia que não venham a acontecer (problema da indução) - e esta última ideia não invalida só a utilização da distribuição normal como a utilização de qualquer outra distribuição de probabilidade que se conheça até hoje.

Isto são as duas maiores críticas que consigo apresentar para desaconselhar o falsificacionismo na Economia.

Um abraço