quarta-feira, fevereiro 27, 2013

A direita "liberal" Portuguesa

Tenho andado de há uns tempos para cá a pensar no porquê de a direita portuguesa que se diz "liberal" não sair da cepa torta. Surgiram-me algumas razões (falta de recursos, poucas pessoas, postura anti-liberal da população, etc); no entanto, e se essas razões podem ser encaradas como válidas, comecei a procurar por algo interno, uma caracterização do grupo (e não das pessoas em particular). E cheguei a 4 vectores que me parecem criar o "espantalho" que, para mim, representa os piores vícios; não me parece que estes vícios andem propriamente desligados uns dos outros. E certamente que também haverá qualidades, mas não é bem disso que estava à procura. Permitam-me, então:

1. Anti-esquerdismo:

Uma maneira simples de explicar este fenómeno é que é mais fácil explicar porque é que os outros estão errados ao invés de arranjar razões para eu estar certo. Traduzindo numa situação mais prática: é mais frequente ver liberais a explanar o caso negativo («porque é que o socialismo/comunismo/etc é mau») do que a fazer o caso positivo («porque é que o liberalismo está certo»). Ou, entrando no mundo da política partidária: «votem na direita não porque eles por si só tenham mérito, mas porque todas as outras alternativas são uma trampa». Isto também leva a que qualquer proposta do quadrante político mais à esquerda seja logo posta de parte, mesmo que não entre em conflito com a ideologia liberal (e.g., não se pode falar de default porque isso é uma perigosa ideia de esquerdista radical).

2. Caciquismo:

Não convém nunca criticar partidos de direita. Ora porque se é militante (e, normalmente, isso implica perder todo o espírito crítico), ora porque isso pode implicar que a "esquerda" vá para o poder, logo vai contra a "causa". Não se deve apontar algo de errado nos argumentos do PSD ou nas acções do CDS porque isso pode permitir que o PS ganhe as próximas eleições. Não se ouvem muitas vozes dissonantes da política de aumenta-impostos-mantém-despesa do actual governo, mesmo que isso seja bastante iliberal; a não ser que seja o PS a fazê-lo: aí é que é uma coisa que destrói o tecido produtivo, prejudica os empreendedores, a classe média, etc. Mas depois vem o PSD salvar a situação, continuamos com défices, aumento da dívida pública; mas ao menos não é a esquerda, "ELES", que estão no poder. As rendas continuam a ser entregues, mas ao menos são aos "nossos".

3. Pragmatismo:

Infelizmente, poucos são os liberais em Portugal que não se congratulam com o seu pragmatismo, a sua moderação e a sua capacidade de aceitar o consenso e o meio-termo. Eu suponho que isto seja derivado de um utilitarismo de algibeira que é muito comum, provavelmente porque é fácil racionalizar decisões e acções assim — «estou a fazer isto porque é o melhor para a maioria», mesmo estando-se na completa ignorância sobre o mundo que o rodeia. No fundo, todas estas "virtudes", que tanto jeito dão na arena política (mas que demonstram uma ligeira falta de espinha dorsal), devem ser amplamente difundidas. Não são precisos radicais que não saibam negociar; o único princípio é que não há princípios; devemos ser realistas e saber comprometer. E por aí fora.

4. Conservadorismozinho:

Este é aquele ponto mais difícil de caracterizar. Não vejo nada de particularmente errado com um estilo de vida conservador per se: desconfiar da mudança, dar valor à tradição, não querer experiências sociais. Tudo princípios relativamente saudáveis quando são aplicados ao nível individual, sem imposição a terceiros. No entanto, parece-me que há uma séria patologia neste meio, um conservadorismozinho completamente agarrado ao status quo, independentemente da justiça inerente ao sistema em si. Uma completa falta de visão para além do que está em frente ao olhos deles, de que algo pode ser diferente, para melhor. O que é algo estranho, tendo em conta que vivemos num estado que andará muito próximo do pior dos dois mundo: consume muito aos cidadãos e devolve quase nada;  muito pouco liberal, na minha opinião. E, no entanto, qualquer solução que não seja gradual (mas daquele gradualismo bacoco, de pequena reforma em pequena reforma, enquanto por detrás continuam a legislar por mais estado e a comer estas pequenas vitórias morais), é completamente rejeitada. O default está fora de questão porque implicaria a falência do estado e isso não pode ser; não porque cause problemas à população, mas porque implicaria que o status quo mexesse de tal maneira que nada seria o mesmo. E isso é que não pode ser.

Já sabemos que este é um exercício vazio de significado. E provavelmente há quem se vá ofender com isso. Mas a direita em Portugal é o lol. Mesmo a direita que se diz liberal, parece que vive completamente em função do estado: algumas vezes porque é de facto essa instituição a dar-lhe o ganha pão; mas, na maior parte, porque também o querem controlar. No fundo, não diferem muito da esquerda, neste aspecto. Esquecem-se, acima de tudo, que a "solução" liberal é a solução de cooperação, não a de coerção.



4 comentários:

rui a. disse...

Prezado Lourenço,

O seu artigo está muito interessante, mas merece uma crítica: vc. focou a sua atenção exclusivamente na direita «liberal» que está ligada aos partidos ou ao poder. Ora, você aí, por mais que procure, não encontra liberais, mas políticos que nunca leram um livro, ou sequer um artigo, de um liberal digno desse nome. A verdade é que, de há uns poucos anos a esta parte, muito graças a dois ou três blogues da praça, o termo «liberal» entrou definitivamente no nosso léxico político. Muita gente achou-lhe graça. Repare que, hoje, ninguém, ou quase ninguém, se denomina «democrata-cristão» ou «social-democrata». São termos fora de moda. O que é que ficou? Ficou o «liberal», donde, há que aproveitar.
Por outro lado, a própria esquerda pegou na designação e utiliza-a por tudo e por nada. Hoje, «liberal» dito à esquerda tem a mesma conotação do «fascista» de outras eras. Mais uma razão para vermos «liberais» onde eles não estão.
Por último, insisto no que ando a dizer há muito: o liberalismo não é uma filosofia do governo e do estado, mas sobre o governo e o estado. Não serve para governar, mas para impor regras e travões ao governo. Donde, por mais que procure, não encontrará nunca um liberal na política partidária.

Cumprimentos,

RA

Anónimo disse...

Sinceramente Rui, sem que isto seja entendido como uma crítica terminal ao Lourenço, acho que estamos perante mais um exemplo do teu "liberalometro". Nada de excessivamente grave como bem saberás.

Aplicando uma lógica kirzneriana diria até que quem detecta tão graves lacunas poderia (ia escrever deveria mas não quero ser acusado de coação) vê-las como uma oportuniade.

Anónimo disse...

Pelo desculpa, o anónimo anterior sou eu.

Miguel Noronha

L. Vales disse...

Rui A.,

Obrigado pelo comentário, e tenho a dizer que aceito a sua crítica, pois acabei por andar demasiado de volta dos partidos. No entanto, parece-me que a caracterização não deixa de fazer sentido, por duas razões:

1) a maior parte dos «liberais» estará ligada ao PSD ou ao CDS; basta fazer uma sondagem rápida pelo Insurgente, Blasfémias, Estado Sentido, 31 da Armada, etc, e ver se os seus membros serão ou não militantes (ou, no mínimo, são votantes convictos desses partidos). A impressão que eu tenho é que a maior parte dele será. Aliás, o único blog que conheço que não será assim será mesmo o "seu" Portugal Contemporâneo.

2) mesmo que não estejam ligados aos partidos/poder, o ponto 3. e 4. acabará por estar presente.

Quanto ao que diz no tocante ao liberalismo (cf. «o liberalismo não é uma filosofia do governo e do estado, mas sobre o governo e o estado. Não serve para governar, mas para impor regras e travões ao governo. Donde, por mais que procure, não encontrará nunca um liberal na política partidária.») tenho a dizer que concordo, especialmente na última parte. Até me lembro de o ter citado neste ponto quando escrevi um artigo para o Movimento Libertário sobre este assunto (http://movimentolibertario.net/?p=555).